CARTA PASTORAL

CARTA PASTORAL
PARA A ARQUIDIOCESE DE NITERÓI
VAI E FAZE A MESMA COISA!
(Lc 10,37)

Queridos sacerdotes e diáconos, consagrados e consagradas, seminaristas e catequistas, membros das pastorais, movimentos e comunidades engajados e comprometidos com o Reino de Deus em nossa Igreja; Querido Povo de Deus desta Igreja Arquidiocesana; Homens todos que são mensageiros da paz e objetos da boa-vontade de Deus:

“Que a graça e a paz de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo, estejam com todos vocês” (Fl 1,2).

carta bispo niteroi
Introdução

O anúncio do Reino de Deus foi central na vida de Jesus. Viver o Reino de Deus foi toda a sua vida. Mas Jesus não explicou diretamente sua experiência do Reino de Deus. Não é fácil para ninguém traduzir em conceitos o que se passa em seu íntimo. Imagine o que se passava no íntimo de Jesus.

Ele nunca falou no estilo jurídico dos escribas, muito menos no estilo solene e grave dos sacerdotes de Jerusalém. Jesus recorreu à poesia. Falou a linguagem dos poetas. Inventou imagens, concebeu metáforas, narrava com maestria, prendia as pessoas ao redor dele. A experiência do Reino de Deus nos chegou através de maravilhosas imagens.

Nós as chamamos de parábolas.

“Olhem os pássaros do céu. O Pai os alimenta. Vejam os lírios do campo. Nem Salomão em
toda sua gloria se vestiu como um deles” (Mt 6,26s). Essa era a linguagem que o povo da Galileia entendia. Jesus presta atenção aos pardais. “Não se vendem dos pardais por uma moedinha? Nenhum deles cai por terra sem o consentimento do vosso Pai!” (Mt 10,29). Jesus entende da vida do dia-adia. “Se seu filho lhe pede um pão, lhe dará uma pedra. Se ele pede um peixe, lhe dará uma cobra?” (Mt 7,9).

Oseias, Isaias, Jeremias também usaram dessa linguagem. Era na poesia que encontravam a força de sacudir as consciências e despertar os corações para o mistério do Deus vivo. A Bíblia
Hebraica conhece o estilo das comparações. O “cordeirinho do pobre” com que Natan acusa Davi é um exemplo esplêndido (2Sm 12,1).

Mas ninguém, como Jesus!

As fontes conservaram quarenta parábolas e mais outras tantas imagens e metáforas que ficaram como esboços de parábolas. Mas essa amostra deve ser muito reduzida de tudo o que Jesus  pronunciou. Como é natural, conservaram-se mais os relatos que ele repetiu ou os que com mais força ficaram gravados na memória.

A pérola de todas foi registrada apenas por Lucas: a parábola do bom samaritano. Tudo começa com um desejo que extrapola todo desejo. Um jurista se aproxima de Jesus e lhe pergunta: Mestre, o que fazer para herdar a vida eterna?

Observem que o sujeito emprega o verbo “herdar” – e lembrem-se, ele é um jurista. Então, ele não está falando de conquista, mas de dom, algo que lhe pertence desde o nascimento, algo inato, que é seu por herança. O Reino de Deus, a vida eterna, não são uma conquista à qual todos lançamo-nos como os descobridores das terras desconhecidas, os bandeirantes abrindo picadas na mata. O Reino e a Vida são dons, são inatos, são heranças da presença de Deus em nós. Todos temos de conquistar. Sim. Mas quando nos lançamos à conquista, vamos em busca do que já é nosso, porque nos pertence, está aqui, inerente. O Reino de Deus é a nossa herança.

No ano de 2015 queremos ir atrás dessa herança.

O Ano de 2015

O ano de 2015 anuncia uma nova aurora na vida da Igreja em nosso mundo, em nosso País e em nossa Arquidiocese. Desde o seu início, este ano será marcado por acontecimentos importantes na vida da Igreja. Toda a Igreja vive o Ano da Vida Consagrada, rezando e refletindo sobre a beleza da entrega total a Jesus Cristo. O Brasil vive o Ano Nacional da Paz, que teve início no Primeiro Domingo do Advento e vai se encerrar no Natal deste novo ano. A Campanha da Fraternidade, na Quaresma, traz o tema: “Fraternidade: Igreja e Sociedade” e o lema: “Eu vim para servir” (Mc 10,45). Nesta Campanha da Fraternidade, a Igreja quer recordar a vocação e missão de todo cristão e das comunidades de fé, a partir do diálogo e da colaboração entre Igreja e Sociedade, propostos pelo Concílio Ecumênico Vaticano II.

Nossa Igreja Arquidiocesana dá graças a Deus pelos 10 anos de fundação do Instituto Filosófico e Teológico do Seminário São José. Pedimos a Jesus que recompense a todos que fazem parte dessa história.

Nossa Igreja Arquidiocesana celebrará, no dia 25 de maio, os 40 anos de Ordenação Episcopal do querido Dom Frei Alano Maria Pena, OP: um momento rico para toda Igreja louvar e bendizer a Deus, com Dom Alano, pelo dom de seu episcopado. Em outubro, agradeceremos a Deus pelos seus 80 anos de vida.

Nossa Igreja Arquidiocesana irá viver a realização das Assembleias Paroquiais, Vicariais e Arquidiocesana, momentos intensos de comunhão e participação. Queremos continuar a caminhada de forma orgânica, em nossas paróquias e comunidades, como um todo, como o corpo de que Paulo fala aos Coríntios, um corpo que não desagrega, não fragmenta, não caminha por si sem saber aonde ir.

“O cálice da bênção que abençoamos não é a comunhão com o Sangue de Cristo? O pão que
partimos não é a comunhão com corpo do Senhor? Um é o pão e um é o corpo que formamos, e
apesar de sermos muitos, todos partilhamos de um só pão!” (1Cor 10,16-17). Essa é a nossa beleza, nossa identidade, nossas fundações, nossa primeira carta de constituição e de identidade.

Nossa Igreja Arquidiocesana prossegue com a campanha para a construção da nova catedral de São João Batista. Contamos com as orações, a divulgação e a colaboração de todos. “De um só
pão!”

Em outubro deste ano, acontece o Sínodo sobre a Família, em continuidade ao Sínodo extraordinário ocorrido em outubro passado. Somos convidados a colaborar, respondendo ao questionário, juntamente com os membros da Pastoral Familiar. Informe-se na sua paróquia.

Deus seja louvado!É muito acontecimento para um ano só!

Estaremos à altura de tamanha responsabilidade e chamamento? Tudo dependerá da confiança que depositamos Nele, nossa herança, nosso começo e nosso fim. O Deus que nos chama sempre é o mesmo – sempre! – que confere a graça para responder ao seu chamado.

Prioridades: acolhida, formação e missão

Nos anos de 2012 e 2013, foram realizados encontros com lideranças de nossa Igreja Arquidiocesana. No ano passado, aconteceu um encontro no primeiro semestre e a assembleia em agosto, da qual escolhemos três prioridades, dentre as várias propostas: acolhida, formação e missão.

A assembleia é uma convocação dos representantes das paróquias e comunidades para refletir sobre a direção da vida pastoral. Ela é realizada em diversos âmbitos: paroquial, vicarial e arquidiocesano, como partes do processo de Planejamento da Ação Evangelizadora. Neste ano de 2015 vamos realizar essas assembleias como oportunidade de escuta daquilo que o Cristo Senhor quer para nossa Igreja, através daquilo que as pessoas, nas paróquias, percebem como melhor caminho para responder aos apelos da Graça, hoje. Daí a necessidade da nossa abertura de coração ao Coração do Senhor Jesus Cristo vivo e ressuscitado. A assembleia é a mais rica oportunidade de caminhar juntos, com objetivos comuns na ação evangelizadora. E o caminhar juntos nos leva a partilhar dons, em vista da missão.

As três prioridades – acolhida, formação e missão – foram escolhidas a partir das várias sugestões apresentadas na assembleia. Em duas reuniões do clero, procuramos revê-las e agrupá-las por afinidades. Em seguida, com a Equipe de Coordenação Arquidiocesana formada pelo Vigário Geral, pelos Vigários Episcopais e por mim, julgamos que as três prioridades, correspondiam àquilo que foi sugerido pela assembleia.

Quero refletir essas três prioridades partindo do texto de Lucas 10, 25-37.

Um jurista perguntou a Jesus sobre o que ele deve fazer para herdar a vida eterna. Jesus respondeu com outra pergunta: Que está escrito na Lei? E sua resposta foi: Amarás o Senhor, teu
Deus, de todo o teu coração e com toda a tua alma, com toda tua força e com todo o teu
entendimento e teu próximo como a ti mesmo! Jesus lhe diz: Faze isto e viverás. Ele ainda perguntou para Jesus: E quem é meu próximo?

A partir dessa questão fomos presenteados com a parábola do Bom Samaritano, como já disse, uma pérola de Lucas.

Descia um homem de Jerusalém a Jericó. Caiu nas mãos de assaltantes. Eles arrancaram-lhe tudo, o deixaram quase morto. O lema dos assaltantes era: O QUE É SEU É MEU!

Passaram por ali um sacerdote e um levita, homens de Deus, que se dedicam à adoração e à liturgia. Eles veem o homem caído, eles passam adiante. O lema deles é: O QUE É MEU É MEU!

Passou, por fim, um samaritano. Desde longa data, judeus e samaritanos eram inimigos. Desde longo tempo, amargavam ressentimentos históricos recíprocos. O samaritano aproximou-se do
homem caído, viu-o, moveu-se por compaixão. Aproximou-se mais ainda dele, tratou-lhe as feridas, derramando nelas óleo e vinho. Atou as feridas. Depois colocou-o em seu próprio animal e o levou a uma pensão, onde cuidou dele. No dia seguinte, tirou dois denários e entregou-os ao dono da pensão, recomendando: Toma conta dele! Quando eu voltar, pagarei o que tiveres gasto a mais.

O lema inspirador do samaritano, sua força, sua inspiração é: O QUE É MEU É SEU!

Jesus se volta e pergunta ao jurista: Qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos
dos assaltantes? E ele respondeu: Aquele que usou de misericórdia para com ele. E Jesus lhe disse:
Vai e faze a mesma coisa.

As parábolas de Jesus sacodem a vida convencional, criam um novo horizonte. Não há como ser o mesmo depois delas e depois Dele. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. Quem tem ouvidos, que os use. A mensagem está aí, aberta a quem a quiser ouvir. Nada é misterioso, enigmático,
esotérico. É uma “boa-notícia” que pede para ser ouvida. Quem a ouvir como espectador não capta nada; quem resiste a ela, fica de fora. Quem tem ouvidos, que os use.

Vai e faze a mesma coisa.

1ª Prioridade: ACOLHIDA

Partindo desse ensinamento da parábola podemos ver a prioridade da ACOLHIDA. Quem acolheu? O que é acolhida? Como acolher?

A Igreja é acolhedora da graça, da vontade e do projeto de Deus, revelado em Jesus Cristo. É uma Igreja dócil às inspirações do Espírito que renova a face da Terra. É uma Igreja-discípula, contemplativa, orante e adoradora, acolhendo no silêncio da escuta a Palavra de Deus. É uma Igreja Marta e Maria, mais Maria do que Marta antes de sair. Mais Marta que Maria depois que já foi.

A fonte é interna, a chama é interna. Deus planta em nós os frutos que ele depois irá colher. Deus tece os dons que ele mesmo irá coroar. Para aquecer, a Igreja deverá arder com o fogo do Espírito. Sem isso, não existe nem anúncio evangélico nem evangelizador, apenas proselitismo religioso e marketing de fé. Sem isso, desaparece todo engajamento apaixonado pela causa. Em seu lugar, sobra apenas um militantismo pastoral ou político, árido e seco, feito planta que já morreu. Evangelização supõe espiritualidade, como o rio supõe a fonte.

Quem acolhe o mistério de Deus, quem acolhe seu filho Jesus, acolhe gente, pessoas, homens e mulheres que se achegam para ver onde Jesus mora (Jo 1,39). O maior desafio da Igreja do novo
século, mas também sua maior riqueza, será reaprender a ser “mestra de hospitalidade” para todos: todos os pobres, todos os excluídos, todos os que não são nem pobres nem excluídos mas se sentem assim. Todos, em sua marcante individualidade. O Papa Francisco tem chamado a Igreja a superar o comportamento burocrático, frio e impessoal, e a estabelecer uma relação pastoral humana. Acolher uma pessoa é acolher sua diferença. Evangelizar é acolher. Acolher é evangelizar.

Observem, irmãos e irmãos, que não se trata apenas de criar uma Pastoral da Acolhida, como alguns supermercados fazem quando instalam pessoas à entrada entregando folhetos de promoções. Trata-se de bem mais, de muito mais, infinitamente mais. Acolher é manter um coração sem nenhuma resistência a quem se aproxime. Acolher é amar o outro do jeito como ele é, sem traçar planilhas para o que ele possa e venha a ser.

Acolhida é comunhão, entre todos. É a comunhão entre cristãos leigos, leigas, consagrados, consagradas, diáconos, padres, bispos e quem mais vier, que dará credibilidade ao trabalho evangelizador. Digo mais. É a comunhão que dará legitimidade à evangelização. Sem a comunhão não temos o que anunciar. Vejam como eles se amam, disse Tertuliano. “Tinham um só coração e
uma só alma” disse os Atos dos Apóstolos (4,32). A acolhida começa dentro da Igreja, entre os membros do corpo. Que nenhum pé, ressentido, diga à mão: Eu a sustento, por isso valho mais. Que nenhuma cabeça, orgulhosa, diga ao pé: Eu o guio, por isso valho mais. Um é o pão e um é o corpo que formamos, e apesar de sermos muitos, todos partilhamos de um só pão!” (1Cor 10,16-17). Essa é a nossa beleza, nossa identidade, nossas fundações, nossa carta de constituição primeira.

Temo que a acolhida se torne um jargão religioso. Não será esse o sentido. O sentido real é o de estar presente nas situações concretas. Católicos afastados, que procurem a Igreja apenas em certas ocasiões, necessitam encontrar um espaço para se encontrarem. Precisam poder dizer: Que bom estar aqui! A acolhida não impõe a todos de forma indiscriminada idênticas exigências. As pessoas são diversas, os graus de proximidade com a vida eclesial são diferentes. Os pastores, com a ajuda dos ministros leigos e equipes pastorais, devem procurar o diálogo interpessoal, considerando os casos segundo suas exigências específicas.

A acolhida se reveste de misericórdia. Aqueles que os sistemas morais e religiosos condenam e que são tidos como pecadores, perdidos, um dia foram batizados, receberam a Graça, o Dom. E se não o foram, foram igualmente amados pelo Filho que por eles também derramou seu sangue. Poderá a Igreja de Cristo fechar o coração a pessoa alguma, seja quem for? A Igreja é chamada a acolher todos com amor e, em nome desse amor, ajudar pessoas a refazerem suas vidas, começarem caminhos novos.

A acolhida não espera para tratar bem quem chega ou procura a Igreja, mas vai ao encontro. A acolhida é missionária: corre ao encontro do outro, onde ele viva, onde ele se encontre. Cristo Jesus é o modelo do missionário que sabe acolher, preocupar-se com o outro, dialogar, ser misericordioso, sem distinção, sem rótulos, sem distanciamentos. Quando a Igreja se fizer acolhedora, caminhará com os olhos fixos Nele. Quando a Igreja caminhar com os olhos fixos Nele, se fará acolhedora.

Vai e faze a mesma coisa.

2ª Prioridade: FORMAÇÃO

Idênticos ao jurista, o sacerdote era bem formado na Lei de Deus e o levita estava no processo de formação. Mas essa formação se revelou apenas intelectualista, e não os levou a agir diante da dor e do sofrimento. Nem sempre a formação recebida tem incidência na vida concreta. Esse é o maior risco. E o nosso maior desafio, no processo de iniciação e formação à vida cristã, está em unir fé e vida.

Foi em Antioquia que os discípulos, pela primeira vez, foram chamados de cristãos (At
11,26). Isso expressava sua condição de batizados: seguidores do Cristo, o “Ungido”. O batizado é ungido no Espírito Santo. O cristão é um homem novo, transformado em Cristo, nascido do alto, como disse Jesus a Nicodemos (Jo 3,3).

Na Igreja Nascente, nossos Pais, os Apóstolos e Padres da Igreja, pregavam, anunciavam, instruíam na adesão à Cristo Senhor, Único Fundamento. Tudo era Cristo. Cristo era tudo. O novo cristão era encaminhado pelos sacramentos do Batismo, Crisma e Eucaristia a mergulhar nas águas batismais do Cristo, nossa vida. Era na Vigília Pascal que o candidato, aceito pela comunidade, era batizado, crismado e recebia o Corpo e Sangue do Senhor, em uma única celebração. Tornava um
homem novo, configurado em Cristo. Hoje, diríamos em linguagens novas que ele era “formatado” em Cristo. Toda comunidade acompanhava, formava, conduzia. A iniciação era um processo para todos e de todos.

Hoje, com o processo de Iniciação à Vida Cristã, podemos e queremos rever toda essa caminhada em nossas paróquias. Nada supera a criatividade. Nada impede o conhecimento. A Igreja Nascente continua sendo o sonho e o paradigma de todas as Igrejas, o lugar para onde voltamos o olhar quando nos perdemos, para onde nós mesmos voltamos quando queremos nos encontrar.

Na busca desse sonho da Igreja Nascente, a formação é muito importante. Infelizmente, para muitos católicos, a formação está ligada a cumprir alguma exigência para receber algum sacramento. Esse modo de pensar leva a enxergar a formação como algo obrigatório, cansativo e chato. Porém, a  formação quer ajudar a crescer e amadurecer na fé, passando de uma fé infantil e ingênua, para uma fé madura, adulta e comprometida. O discipulado passa pelas estradas da formação permanente e da vida sacramental.

A formação permanente exige o ouvir. Mas ouvir diferente de como se ouviu pela primeira vez. É o ouvir, respondendo. Quando ouvimos, a primeira vez, provavelmente estávamos andando, em pé, fazendo algo, construindo a existência. A formação é o ouvir, sentado, sem pressa. É o ouvir, saboreando cada palavra ouvida, como se fosse um chocolate de sabor extraordinário. Para a formação, portanto, é preciso tempo, é preciso ter tempo. A formação requer tempo.

E a vida sacramental requer espaço. Sem que haja um espaço nas agendas cheias e nas vidas repletas, a vida sacramental não passa de mero cumprimento de obrigações religiosas. É a vida sacramental que configura o discípulo. Aquele que se sentou aos pés do Mestre, de novo como Maria de Betânia, para ouvi-Lo (Lc 10,38) é o que ficou com a melhor parte. A melhor parte é o Senhor.

É bom perguntar: Deixo-me formar por Jesus através da Igreja? Sou uma pessoa de comunhão, que segue as orientações e diretrizes da Arquidiocese? Aproveito as oportunidades de formação que a Arquidiocese, o Vicariato e a Paróquia oferecem? Como agente de pastoral, esforçome para participar da formação que é dada no Curso de Pastoral Catequética? Como batizado, procuro crescer na fé e me empenho para me formar no Curso Estrela da Evangelização? Busco me atualizar através da formação para agentes das diversas pastorais, movimentos e comunidades? Como diácono ou padre, participo e acolho as propostas de formação permanente para o clero?

Sejamos discípulos de Jesus Cristo na comunidade. Não percamos a oportunidade de nos deixar formar por seu amor.

Então, vai e faze a mesma coisa. Ouça. Porque é para você.

3ª Prioridade: MISSÃO

Qual dos três da parábola viveu a missão de amar o próximo?

Em que consiste ser missionário?

A Igreja é missionária desde a essência do ser. Ela traz a missão dentro de si como a semente traz a árvore, como a árvore traz o fruto. Deixar de ser missionária é deixar perder a força da semente. A missão fala ao ser da Igreja. Ser missionária não é para a Igreja uma característica secundária, sem importância. É essencial. Ou a Igreja é missionária ou não é Igreja.

De onde a Igreja extrai a essência da semente? De onde ela tira sua “missão missionária”? A missão tem sua origem no mistério de comunhão da Trindade Una e Santa. A missão do Filho e do Espírito foi nos mostrar o amor do Pai por nós. A Igreja é missionária porque Deus é missionário. Deus é missionário de seu próprio amor que não se contém em si.

Missão significa tarefa, serviço. Dizer que a Igreja é missionária significa dizer que ela existe para servir e evangelizar. Esta é sua missão, sua razão de ser. Evangelizar constitui a graça e a vocação própria da Igreja, sua mais profunda identidade.

Não é possível dizer em poucas palavras a riqueza do que seja evangelizar. Mas o mais importante é não perder de vista o centro da ação evangelizadora da Igreja: o anúncio de Jesus Cristo, o dom gratuito de Deus a todos. Não há evangelização verdadeira se o nome, a doutrina, a vida, as promessas, o Reino, o mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus não forem anunciados.

No começo e no fim da missão, como sua origem e seu objetivo, encontra-se o Mistério da Comunhão Divina. A Igreja é sacramento de Cristo. Cristo é o Sacramento fontal de Deus. Como sacramento, sinal e instrumento da salvação, a missão da Igreja é apontar à humanidade o caminho de Cristo, porque ele é aquele que leva à comunhão com o Pai, ele é quem constrói a realização da paz e  da unidade, é por ele que a humanidade anseia, até quando não sabe disso. Participar da comunhão trinitária constitui o cerne da missão evangelizadora da Igreja.

O Filho e o Pai vivem em comunhão entre si. O Espírito é a comunhão entre os dois. Os discípulos vivem essa comunhão na unidade que estabelecem entre si, na permanência da comunhão com o Pai e o Filho e o Espírito, para que o mundo conheça e creia (Jo 17, 21.23).

Esse é o espaço do Espírito. Ele é o protagonista da missão da Igreja. Quantas vezes teremos de nos lembrar de que nenhuma missão se baseia nas capacidades humanas, mas na força do Cristo Ressuscitado, no vigor do Espírito que nos faz testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria, em Niterói, São Gonçalo, Itaboraí, Maricá, Tanguá, Rio Bonito, Silva Jardim, Saquarema, São Pedro da Aldeia, Araruama, Iguaba Grande, Cabo Frio, Arraial do Cabo, Búzios e até as extremidades da terra (At 1,8; 2,1 -41).

É claro que a Igreja não está sozinha. Ela vive no Espírito, vive do Espírito, vive para o Espírito. É dele que recebe a força e os meios para desenvolver a sua missão (Mt 28,18-20; Mc 16,15-18.20; Lc 24,46-49; Jo 20,21 -23). O Espírito missionário é o princípio e o fim da Igreja missionária. É por Ele que tudo chega, é por Ele que tudo emana.

Evangelizar não é um ato isolado e individual, mas dom e serviço realizado sempre em união com a missão da Igreja e em nome da Igreja. O mesmo Espírito que anima a Igreja, é Ele quem suscita carismas, cria ministérios, cria, sempre cria, porque é, sobretudo, Espírito Criador.

Bendito seja o Espírito de Deus! Bendita seja sua interminável criação!

Criação e diversidade são palavras que andam juntas. No Corpo de Cristo, cada membro é diferente, mas cada um colabora na edificação de todos (1Cor 12,4-30). O Batismo é o mesmo. A Crisma é o mesmo sacramento para todos. A Eucaristia que repartimos é a mesma Ceia do Senhor que celebramos. Quando precisamos retornar à Casa do Pai é sempre pelo Sacramento da Reconciliação com Cristo e com a Igreja que voltamos, no mesmo caminho tantas vezes trilhado. Mas cada um é sempre cada um. Nos estertores da vida ou quando a doença nos fragiliza é a mesma Unção que recebemos para nos fortificar. E quando resolvemos nos dispor ao serviço de Deus, seja constituindo uma família para que o seu Nome se amplie na Terra ou constituindo-nos como família de homens e mulheres para quem só Deus basta, são os Sacramentos do Matrimônio e da Ordem que desde sempre e para sempre nos irão impelir, enquanto houver Igreja, enquanto os novos Céus e novas Terras não surgirem no contorno do Projeto Divino.

Deus é sempre o mesmo. Só assim é que Ele contém todas as diferenças.

Sejamos missionários de Jesus Cristo em todos os ambientes. Não percamos a oportunidade de testemunhar o seu amor.

Vai e faze a mesma coisa.

Quem é meu próximo no Reino?

Irmãos e irmãs, desta Igreja Arquidiocesana: A vida é mais do que se vê.

Certamente, para muita gente, não era fácil crer que o Reino de Deus estava chegando. Jesus precisou ensiná-los a perceber a presença salvadora de Deus de outra maneira, de um modo inconfundivelmente novo, e começou sugerindo que a vida é mais do que aquilo que se vê. Enquanto todas as pessoas iam vivendo de maneira distraída as coisas aparentes da vida, algo misterioso estava acontecendo no interior da existência, transformando-a por dentro.

A Parábola do Bom Samaritano não é apenas uma história exemplar para responder à
pergunta do jurista de “Quem é meu próximo?”. É uma parábola sobre o Reino de Deus que bem
8 poderia começar assim: Com o Reino de Deus acontece o mesmo que acontece a um homem que caiu na mão de assaltantes. É uma parábola da vida. A vida é mais do que se vê. É uma parábola do Reino. O Reino é mais, muito mais do que se vê.

Para entender a parábola precisamos nos colocar no lugar do ferido caído na valeta do caminho.

O que ele viu? Ele viu dois viajantes passando por onde ele estava. Primeiro, um sacerdote, depois, um levita. Ambos vêm do templo ou estão indo para o templo. O ferido caído os vê chegar cheio de esperança: são do seu próprio povo, representam o templo, são homens de Deus, terão compaixão dele, não resta dúvida, terão compaixão. Mas não é isso o que acontece. Quando o ferido caído os percebe dando a volta e passando ao largo e ao longe, ele vê dentro de si mesmo minar o resto das esperanças num resto de humanidade, que poderia haver, justamente, em quem dedicou sua vida à engenharia do humano.

Na poeira do horizonte aparece um terceiro viajante. Não é sacerdote, não é levita, não pertence ao templo, sequer pertence ao povo eleito. É um odiado samaritano. Pelos ressentimentos mútuos, o ferido caído na valeta do caminho teme que ele se aproxime. A mesma esperança que teve com os anteriores se transforma em medo. O ferido está pronto para esperar o pior.

Mas o que acontece é um encarrilhar de verbos, todos de ação, todos de cuidados: o estranho sente compaixão, se aproxima, faz tudo o que pode, cuida, limpa, desinfeta, suaviza, enfaixa, leva-o sobre sua própria montaria, hospeda, cuida, arca com os gastos. Quem é aquele homem? Que tipo de homem é aquele homem que lembra uma mãe cuidando do filho ferido?

A parábola rompe todos os esquemas e classificações entre amigos e inimigos, eleitos puros e estranhos impuros. Será mesmo verdade que a misericórdia de Deus pode provir de onde menos se espera e não apenas dos canais oficias das instituições legitimadas e legitimadoras? Será mesmo verdade que Deus manifesta seu amor até no inimigo mais proverbial?

Desconcertante. A parábola é desconcertante. Jesus é desconcertante.

Jesus olha a vida a partir da sarjeta, com os olhos das vítimas estropiadas, necessitadas de ajuda, dos que não têm ninguém e que ninguém as quer ter. Para Jesus, a melhor metáfora de Deus é a compaixão do estrangeiro inimigo por um ferido abandonado.

A parábola inverte tudo, desafia tudo, contradiz tudo.

Será isso mesmo o Reino de Deus? Será preciso reordenar tudo, dando primazia absoluta á misericórdia sobre tudo mais? Será preciso identificar-se com o sofrimento do ferido caído na valeta do caminho? Porque, afinal, essa valeta pode ser a minha, esse caminho pode ser o meu, esse ferido pode bem ser eu.

A parábola que inverte tudo antecipa a inversão total de Jesus.

Não vai demorar e Jesus será o ferido caído na valeta do caminho, à frente do qual desfilarão sacerdotes, juristas, gente de bem, gente do mal e, quem sabe, até samaritanos. Ferido e amaldiçoado pela própria Lei, a Cruz será mais baixa que uma valeta de caminho, pior que toda encruzilhada de ladrões, muito mais vergonhosa e odiada que tudo o que for pensado.

A partir da Cruz – Paulo deixou claro com todas as letras para que até o mau entendedor entendesse – a partir do Crucificado, Deus, sim, o mesmo inacessível Deus de Israel, desceu aos cafundós do humano e resgatou o Filho das garras do impossível. Depois do Crucificado não haveria mais nenhum Deus ex-machina poderoso e autossuficiente. Jesus Cristo foi o poder de Deus.

Conclusão

Irmãos e irmãs, desta Igreja Arquidiocesana: somos a Igreja de Cristo.

A Igreja acolhe o Senhor, deixa-se formar por Ele, torna-se verdadeira discípula-missionária, vai ao encontro dos irmãos numa atitude de amor. A Igreja sempre ouve: Vai e faze a mesma coisa. E Ela sempre vai e sempre faz a mesma coisa.

Irmãos, irmãs, eu os conclamo a rezar, rezar muito, todo dia, toda hora, para que as vocações batismais se transformem em vocações missionárias. Para que mais e mais pessoas conheçam e experimentem o amor de Jesus. Para que o Espírito não encontre barreiras em cada pobre eu que oferecemos e dispomos a Ele.

Não desperdicem “retalhos de tempo”. Isso é importantíssimo. Quando forem para o trabalho, rezem nos carros, rezem nos ônibus, rezem em casa, rezem com seus filhos pequenos e, sobretudo, ensinem os seus filhos a rezar. E quando estiverem com eles, especialmente com os mais pequeninos, digam a eles que eu lhes pedi para dizer que Jesus os ama muito e os quer muito, com Ele e para Ele. Que eles são os mais importantes e os mais amados do Reino do Pai.

Não tenham medo. O medo é a maior das prisões. Tudo começou, quando Adão se escondeu, com medo (Gn 3,10). Quando tudo recomeçou, Jesus ressuscitado, o novo Adão, arrancou os discípulos da casa onde haviam se escondido, por medo (Jo 20,19). Não tenham medo. Não se escondam. Arranquem o medo de seus corações e deixem o Ressuscitado viver e falar por vocês.

Se a tarefa for difícil, nossos modelos e intercessores olharão e pedirão por nós. São João Batista, o precursor, aquele que soube falar, denunciar e apresentar o Cordeiro. Mas, sobretudo, a Senhora do silêncio profundo e da palavra exata, aquela que soube calar, falar e obedecer. A Virgem Auxiliadora, Senhora de todos os homens, de todos os povos, Senhora de si mesma, alcance-nos a graça das graças: a graça de conhecer e amar Jesus e de viver por Ele, como discípulos e missionários de um Reino que não tem fim. Amém.

Niterói, 11 de fevereiro de 2015
Memória de Nossa Senhora de Lourdes

+ José Francisco Rezende Dias
Arcebispo de Niterói

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