O SILÊNCIO NA SAGRADA LITURGIA

Frei Alberto Beckhäuser, OFM

“Enquanto um profundo silêncio envolvia o universo e a noite ia no meio de seu curso, desceu do céu, ó Deus, do seu trono real, a vossa Palavra onipotente” (cf. Sb 18,14-15; – Missal Romano, 30 de dezembro, Antífona da entrada). Eis o silêncio e a palavra, a Palavra que se manifesta no silêncio.

  1. Silêncio como participação

Por que tratar do silêncio na Liturgia, sendo ela por sua natureza, expressão comunitária, ação da Igreja convocada e reunida no Espírito do Senhor? Ensina o Concílio Vaticano II: “As celebrações litúrgicas não são ações privadas, mas celebrações da Igreja, que é o ‘sacramento da unidade’, isto é, o povo santo, unido e ordenado sob a direção dos Bispos. Por isso, estas celebrações pertencem a todo o Corpo da Igreja, e o manifestam e afetam; mas atingem a cada um dos membros de modo diferente, conforme a diversidade de ordens, ofícios e da participação atual” (SC 26).

Ao falar da participação ativa na Sagrada Liturgia, o mesmo Concílio, declara: “Para promover uma participação ativa, trate-se de incentivar as aclamações do povo, as respostas, as salmodias, as antífonas e os cantos, bem como as ações ou gestos e as posturas do corpo. A seu tempo, seja também guardado o sagrado silêncio” (SC 30).

A referência ao silêncio não constava no esquema original da Constituição, mas foi acrescentado pela Comissão, em resposta ao desejo expresso na Assembléia conciliar.

Neste último texto insiste-se na participação ativa que, no entanto, se manifesta de diversos modos: por palavras, como aclamações, respostas, salmodias, antífonas e cantos, por ações ou gestos e posturas do corpo, bem como pelo silêncio. Participa-se por palavras, ações, gestos e posturas do corpo, e pelo silêncio. Um silêncio que também constitui uma forma de participação.

Toda a reforma proposta pelo Concílio visa a uma participação consciente, ativa, plena e eficaz na Sagrada Liturgia, para que os fiéis não assistam aos sagrados mistérios como estranhos ou espectadores mudos, mas compenetrados pelas cerimônias e pelas orações participem consciente, piedosa e ativamente da ação sagrada (cf. SC 48). Os textos e as cerimônias devem ordenar-se de tal modo, que de fato exprimam mais claramente as coisas santas que eles significam e o povo cristão possa compreendê-las facilmente, na medida do possível, e também participar plena e ativamente da celebração comunitária (cf. SC 21).

A expressão litúrgica consta, sobretudo, de cerimônias e orações ou textos. Tanto as cerimônias como os textos constituem ritos. A expressão “espectadores mudos” parece excluir o silêncio, mas ao se insistir sobre as cerimônias, compreendidas como gestos, ações, movimentos e posturas corporais, insinua-se também o silêncio, pois eles são acompanhados e realizados, normalmente, em silêncio. O silêncio não torna a pessoa necessariamente “estranha” ao ato de que ela participa; a presença silenciosa pode traduzir uma participação muito intensa e ativa.

A reforma litúrgica pede uma participação consciente, ativa e plena, para que seja eficaz ou frutuosa, para que o povo cristão na Sagrada Liturgia consiga com mais segurança graças abundantes (cf. SC 21). Portanto, o objetivo último é a participação frutuosa. Para que possa ser frutuosa, precisa ser consciente, ativa e plena.

Após o Concílio, sobretudo no Brasil, surgiu certa confusão quanto à compreensão do que seja participação ativa. Tal confusão, ou má compreensão, acabou deixando muitas marcas negativas e distorções nas celebrações litúrgicas, transformando-as de assembléias celebrantes em platéias de show ou de espetáculo. Nas assembléias celebrantes todos são atores e não meros espectadores.

A expressão “participação ativa” foi usada pela primeira vez por Pio X logo que foi eleito Papa. Preocupado com a vida cristã e os fiéis assistindo às Missas dominicais por mera tradição ou obrigação com uma presença passiva, não sendo mais atores da ação litúrgica, mas simples espectadores, ele lançou um grito de alarme. No Motu proprio Tra le sollecitudini, de 22 de novembro de 1903, afirmava que o espírito cristão tem sua primeira e indispensável fonte na “participação ativa dos fiéis nos sacrossantos mistérios e na oração pública e solene da Igreja”.

Participação ativa torna-se a palavra de ordem do Movimento litúrgico; é retomada por Pio XII na Encíclica Mediator Dei.

À luz da compreensão teológica da Sagrada Liturgia, o Capítulo I da Sacrosanctum Concilium acentua a necessidade de se reconduzir os fiéis a participarem ativamente da vida litúrgica, apresentando a partir dessa compreensão os critérios para a reforma de toda a Liturgia. O tema da participação consciente, ativa e plena dos fiéis perpassa todo o documento conciliar. Tudo isso, para que se chegue a uma participação eficaz ou frutuosa, ou seja, a participação nos mistérios celebrados. Deixar-se santificar por Deus e dar glória a Ele por Cristo, com Cristo e em Cristo.

Acontece, porém, que a prática da celebração litúrgica, particularmente no Brasil, reduziu os meios da participação frutuosa, ou seja, a participação consciente, ativa e plena, a um de seus elementos, isto é, a participação ativa. Ainda mais. Compreendeu a participação ativa como sendo expressão meramente oral, a palavra falada e cantada.

Ora, a participação ativa abrange todas as faculdades da pessoa que participa: a inteligência, a vontade e os sentimentos. Abrange todos os sentidos, como o ouvido, a vista, o olfato, o paladar. Inclui o tato, a ação, o movimento, a experiência do tempo e a própria presença física como pessoa formando assembléia, bem como o silêncio sagrado. As faculdades e os sentidos, bem como a presença e o silêncio, são todos meios de comunicação, de participação ativa.

  1. A natureza do silêncio

 

            O silêncio! Silêncio pode significar: estado de quem se cala; privação de falar; taciturnidade; interrupção de ruído, ausência de barulho, quietude, calada; sossego, lazer, calma, paz; sigilo, segredo; ordem para mandar calar ou impor sossego. No latim silentium pode significar ainda: repouso, inação, descanso, ociosidade, sombra. O gerúndio de silere, estar silencioso, calar-se, no plural, silenda, é tomado como substantivo e significa “o que se deve ocultar, coisa arcana, segredo, mistério”.

O silêncio não consiste apenas em ausência de palavras. É também a ausência de qualquer som ou ruído; tem o significado de sossego, de calma e de paz. Outro aspecto interessante é o segredo, o sigilo. Segredo e sigilo fazem lembrar o mistério. Mistério no sentido de conteúdo ou sentido que está por detrás ou além dos sons, das palavras ou ruídos. O silêncio não é mero vazio, mas pode ter um conteúdo a ser guardado.

Silêncio faz lembrar o deserto, a caverna, o útero, a calada da noite, a floresta, o cimo da montanha, o véu, a veste. Existe uma presença, mas misteriosa, encoberta pelo silêncio. Assim é o ser humano, mistério envolto pelo corpo.

Quando a pessoa deseja conhecer-se, ela entra em si mesma como numa caverna. Faz silêncio. Aí desaparecem os ruídos, os estímulos que vêm de fora. O ser humano costuma pensar e refletir no silêncio. Medita no silêncio. Para recordar procura fazer silêncio. No silêncio ele dialoga consigo mesmo, ele se encontra consigo mesmo. Não só consigo mesmo. Como numa caverna, como no deserto, como no meio da floresta, encontra-se com a natureza, com o próximo e mesmo com Deus.

Jesus Cristo busca o deserto despovoado, vazio de qualquer segurança humana, para confrontar-se consigo mesmo e com sua missão. Vai para as montanhas na calada da noite para encontrar-se consigo mesmo e com o Pai, para entrar em profunda comunhão com o Pai.

O deserto, a caverna e a montanha isolam o espaço dos estímulos, dos ruídos externos. Um confrade meu costumava subir as montanhas de Petrópolis para, lá no meio da floresta, na calada da noite, deitado numa clareira, contemplar a natureza, o céu estrelado, a majestade do Criador a envolvê-lo com sua plenitude. Os eremitas retiram-se para lugares ermos, a fim de encontrar-se consigo mesmo e com Deus.

A caverna é silêncio, o deserto é silêncio, a montanha é silêncio, o útero materno é silêncio, o corpo humano é silêncio. Deus é silêncio: paz, sossego. Não um vazio, mas um espaço pleno.

O homem moderno perde-se no som, no ruído, no estrépito, nos estímulos externos, que bombardeiam todos os sentidos, a mente, a vontade e o coração. Deixa arrastar-se por eles e cai na superficialidade, na aparência, na exterioridade.

No alemão temos duas expressões muito significavas neste sentido. Einsam e allein. Einsam significa solitário, isolado, sem relacionamento. Allein, por sua vez, significa todo um, a sós, reconciliado, unificado. Ele não sofre de solidão, está consigo mesmo, relaciona-se consigo mesmo, condição para relacionar-se com a natureza, com o próximo e com Deus. Neste estar consigo mesmo, ele está em paz, em sossego, faz espaço para todas as coisas, acolhe em si toda a realidade, o próprio Deus.

O silêncio costuma incomodar. Na sociedade de hoje, as pessoas têm medo do silêncio, fogem do silêncio, fogem de si mesmas, porque têm medo ou dificuldade de encontrar-se consigo mesma, de estar consigo mesma. Daí a inquietude, a ansiedade generalizada.

A poluição do silêncio não acontece apenas pelo excesso de sons e de palavras. Todos os sentidos são poluídos por ruídos, por demasiados estímulos externos.

Os olhos: Quantas imagens! Televisão, cinema, Internet, anúncios, publicidade, revistas de todo tipo que apelam para a vista. Particular destaque merece os movimentos: movimentos apressados de pessoas, de veículos, de imagens nas telas. O ruído do movimento costuma ser mais agressivo do que o ruído acústico. É o ruído visual, tão freqüente nas celebrações litúrgicas.

Os ouvidos: além das muitas palavras, quando todos querem falar ao mesmo tempo, temos o rádio, a televisão, o computador, o telefone, o celular, os “sons”, a música estridente dos conjuntos musicais, as ruidosas festas de clubes, os jantares dançantes, onde ninguém consegue ouvir a ninguém, os salões de baile, as discotecas, os blocos carnavalescos e os de protesto, o barulho das fábricas e dos carros, tiros, fogos ensurdecedores, músicas de publicidade comercial e até assembléias cultuais de igrejas. A atmosfera apresenta-se poluída de sons.

O olfato: os aromas, os perfumes de todo tipo, que aliciam e embriagam, as loções, os cremos perfumados, os sabonetes perfumados, os shampoos, os desodorantes, os desinfetantes perfumados, o “Bom ar”, as drogas.

O paladar: a busca possessiva da comida e da bebida. A voracidade no comer e beber. As guloseimas, os doces, o chocolate.

O tato: a busca desenfreada dos afetos possessivos egoístas, o gozo do sexo pelo sexo, a busca do prazer a todo custo. A posse do outro sem respeito à alteridade.

Tudo isso, em excesso, destrói o silêncio como sossego, paz, quietude e repouso no ser.

  1. O silêncio como jejum

Penso que podemos usar de outra imagem para descrever o sentido e a importância do silêncio, o jejum.

O que é o jejum e o jejum religioso? Jejuar, no seu sentido comum, é abster-se de comida ou de bebida. Deixar de comer e de beber. No sentido religioso, é abster-se de um pouco de comida ou de bebida para fazer memória da dignidade do ser humano como rei e senhor da criação. É celebrar e imitar Cristo Jesus, Senhor da criação, que “não se apegou à sua igualdade com Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo, tornando-se solidário com os seres humanos” (Fl 2,7). Depois, “apresentando-se como simples homem, humilhou-se, feito obediente até a morte, até a morte numa cruz. Foi por isso que Deus o exaltou e lhe deu o Nome que está acima de todo nome” (Fl 2,8). Esvaziou-se ainda, tomando para o nosso bem a humilde aparência de pão, no mistério da Eucaristia.

O jejum vale não pela quantia de alimento ou de bebida da qual a pessoa se abstém, mas pelo sentido da ação simbólica ritual. A comida e a bebida são os elementos de que o ser humano mais se apropria. E, muitas vezes, apropriando-se, submete-se a eles, torna-se escravo deles. Os bens materiais como a comida e a bebida são bons em si. Mas, parando neles, o ser humano os transforma em ídolos, deuses falsos. Apossando-se dos bens materiais, enche-se deles, não deixando espaço para o Bem maior, para o amor a Deus e ao próximo. Trata-se, pois, de um ato de liberdade e de respeito diante dos bens. Deixa-se o alimento ser alimento, a fruta ser fruta, o arroz ser arroz, a bebida ser bebida. A ação de jejuar constitui uma atitude de pobreza.

O jejum tem ainda outro sentido simbólico muito forte. Abstendo-se de comida ou de bebida, a pessoa esvazia o estômago, os intestinos, faz espaço em si mesmo. Calando os ruídos do paladar, faz-se silêncio no seu interior. Com isso, ele procura fazer espaço em si para o bem, para o outro e para Deus. Torna-se útero para acolher e desenvolver a vida. O jejum constitui uma oração, um ato de culto a Deus, reconhecido como o Sumo Bem.

O silêncio pode, pois, ser comparado ao jejum:

Jejum dos ouvidos: Abster-se das palavras para acolher a Palavra em sua mente, no seu coração. Para ouvir, a pessoa tem que se calar. Como diz São Francisco de Assis: Devemos ser ouvintes atentos da palavra, acolhê-la em nosso coração e devolvê-la com frutos a Deus. Não podemos apropriar-nos da Palavra. Importa ser como Maria, a humilde serva da Palavra: Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a vossa Palavra. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós. Maria ouve a Palavra, concebe-a em seu coração por obra do Espírito Santo e a dá à luz. Na Forma de Vida redigida para as Irmãs Pobres de São Damião, Santa Clara propõe que as Irmãs observem o silêncio quase todo o tempo e em todos os lugares do mosteiro. Exclui, porém, a enfermaria, “em que as Irmãs sempre podem falar discretamente para distrair as doentes e cuidar delas”. “Mas, podem insinuar o que for necessário sempre e em toda parte, brevemente e em voz baixa”. É a palavra a serviço da caridade que está acima de tudo.

Jejum dos olhos: Pela vista o ser humano contempla o belo manifestado na criação. A reação primeira diante do belo é a admiração. O ser humano tende, porém, a se apossar do belo, a encher o seu coração com as aparências. Torna o belo objeto do desejo e usa o belo para vender produtos para o paladar. Não sobra mais lugar na sua mente e no seu coração para admirar o Belo por excelência que é Deus, ver a sua face, estar diante de sua face, contemplar a sua face. Temos necessidade de silenciar o excesso de cores, para perceber o Belo por excelência que é Deus.

Jejum do olfato: Diz São Paulo que somos chamados a ser “o bom odor de Cristo”. Vemos, no Evangelho segundo João, que Jesus se deixa ungir por Maria Madalena com um precioso óleo perfumado. Como cristãos somos chamados a perfumar o Corpo do Senhor. Tanto perfume usado na sociedade de hoje nos ajuda a perfumar o Corpo do Senhor, ou nos tornamos escravos dos bons odores? Também aqui somos chamados a jejuar, a silenciar o sentido do olfato para sentirmos o bom odor de Cristo.

            Jejum do paladar: Vós lhes destes o Pão do céu, que contém em si todo sabor. É o que a Igreja reza na Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo. Eis o sentido do jejum em geral e, em especial, do jejum eucarístico. Jesus, o Pão descido do céu, quer ser nosso alimento, o Pão nosso de cada dia. Antes de tomarmos este alimento somos, convidados a fazer jejum, a fazer espaço em nós, a fazer silêncio no nosso interior, evitando a entrada dos estímulos do paladar. Pela Comunhão repousamos em Cristo, em Deus, entramos em íntima comunhão com Deus, com o próximo e com todo o criado. Por isso, também o silêncio antes e depois do rito da Comunhão, o silêncio que constitui uma forma de jejum.

Jejum do tato: O tato é a linguagem mais profunda do amor criativo do ser humano. Um tocar de entrega, de doação. Maravilhoso pensar que o toque é a expressão maior do amor humano a que está ligado o surgimento de uma nova vida. Muitas vezes, no entanto, degenera em toque de possessão, de opressão. No mistério da Encarnação, Deus mesmo toca a humanidade, dá-se à humanidade, assumindo-a, divinizando-a. Também nós somos chamados a jejuar do tato egoísta e possessivo, para deixar-nos tocar por Deus, por Cristo. Sobretudo em nossa vida afetiva, freqüentemente, devemos ouvir o toque de silêncio do tato, para deixar-nos tocar por Deus.

Jejum do tempo: O tempo não é percebido por um sentido particular. Ele imprime suas marcas em todo o nosso ser. O tempo nos faz perceber a vida como uma grande passagem, como um caminho com um começo e um fim. A tendência do homem é tentar fazer parar o tempo, superar o tempo, apossar-se dele. Percebe, porém, que o tempo lhe escapa, é implacável, que devora tudo, que constitui uma verdadeira fatalidade.

Então, faz-se necessário jejuar o tempo passageiro, não deixar-se dominar por ele, fazer silêncio do tempo caduco para mergulhar e repousar no “tempo eterno”, no Senhor do tempo, em Cristo Jesus, o mesmo, ontem, hoje e para sempre. Mergulhados Nele, já vivemos a eternidade, porque repousamos em Deus.

  1. O silêncio sagrado na Liturgia

O que refletimos sobre o sentido do silêncio, podemos vivê-lo na Sagrada Liturgia. Não se trata de qualquer silêncio, mas do silêncio sagrado que acolhe, guarda e comunica o mistério, a comunhão com o próprio Deus por Cristo e em Cristo. Trata-se de viver os mistérios de Cristo também através do silêncio. Por isso, silêncio sagrado, que tem a ver com o divino, com Deus. Silêncio que estabelece uma comunhão com Deus, por Cristo e em Cristo.

O silêncio é elemento constitutivo da própria Liturgia. Não é algo à parte, como que uma interrupção da celebração, uma pausa para fazer outra coisa ou não fazer nada. O silêncio da assembléia conforme o momento constitui um sinal sensível e significativo do mistério celebrado, numa dimensão simbólica, um verdadeiro rito comemorativo.

O silêncio adquire significado próprio conforme o momento em que ele é guardado. O silêncio precede certos ritos e acompanha outros e se segue a outros.

Como já vimos, por causa de uma interpretação reducionista da participação ativa, as celebrações, em grande parte, foram despojadas da prática do silêncio e com isso foram perdendo a dimensão do absoluto, do sagrado, do mistério. Nossas celebrações tornaram-se por demais verbosas, barulhentas, estrepitosas.

Esta maneira de celebrar está sendo uma preocupação por parte de muitos pastores da Igreja. Trata-se de uma maneira de celebrar que distrai, que lança a pessoa para fora de si mesma, distraindo-a, alienando-a no superficial, no externo e superficial do mistério. Podemos dizer que isso provém, sobretudo, da falta de uma compreensão mais profunda, mais teológica da natureza da Sagrada Liturgia.

Por ocasião dos 40 anos da Sacrosanctum Concilium, o Cardeal G. Daneels, Arcebispo de Malines-Bruxelles, na Bélgica, proferiu uma palestra à Conferência dos Bispos do Canadá sobre A Liturgia quarenta anos após o Concílio Vaticano II. Disse ele:

“A participação ativa da assembléia na Liturgia é evidentemente um presente incomparável do Concílio ao Povo de Deus. Mas como em toda reforma digna deste nome, há uma sombra no quadro. A participação ativa na Liturgia, o fato de prepará-la em conjunto, a solicitude de uma aproximação maior possível da cultura e da sensibilidade dos fiéis, podem conduzir imperceptivelmente a uma espécie de apropriação da Liturgia. A participação e a celebração mútua podem conduzir a uma forma sutil de manipulação. Então, a Liturgia não perde seu caráter intangível – o que em si não é ruim – para tornar-se, em certo sentido, propriedade dos que a celebram, domínio abandonado à sua “criatividade”. Os que se acham ao serviço da Liturgia – padres e leigos – tornam-se seus proprietários. Em certos casos, é possível mesmo chegar a uma espécie de “golpe de força” litúrgico, que elimina o sagrado, banaliza a linguagem e transforma o culto em acontecimento social. Em resumo, o verdadeiro sujeito da liturgia não é mais Cristo, que pelo Espírito, rende homenagem ao Pai e santifica a assembléia num gesto simbólico. O verdadeiro sujeito torna-se a pessoa humana ou a comunidade que celebra. O acento exagerado antes dos anos cinqüenta colocado na disciplina, na obediência, na fidelidade às rubricas, na recepção e entrada numa entidade preexistente, cede o lugar à vontade própria e ao esvaziamento do senso do mistério na Liturgia. Se houver isso, a Liturgia não é mais leitourgía: obra do povo e para o povo, relativamente a Deus; faz-se pura atividade humana”.

A Liturgia nos ultrapassa. Vale a pena transcrever mais um trecho do Cardeal Daneels: “Há na Liturgia um princípio básico: A Liturgia é, em primeiro lugar, “a obra de Deus em nós” antes de ser nossa obra para Deus. A Liturgia é, em sua própria essência, um datum, um dom. Ela nos ultrapassa e existe bem antes que tenhamos podido nela participar. O sujeito ativo da Liturgia é Cristo ressuscitado. É ele o primeiro e único Sumo Sacerdote, o único capaz de oferecer o culto a Deus e santificar a assembléia. Não se trata apenas de uma verdade teológica abstrata; o fato deve tornar-se evidente e visível na Liturgia. Não quer dizer que a pessoa ou a comunidade que celebra não tenha jamais o poder ou a autorização de apelar para sua criatividade. A comunidade é criadora, mas não é uma “instância de criação”. Doutra forma, a Liturgia não seria mais a epifania dos mistérios de Cristo através do serviço da Igreja, a continuação de sua encarnação, crucifixão e ressurreição, a “encarnação” dum projeto divino na história e no mundo das pessoas, por meio de símbolos sagrados. Em tal situação, a Liturgia nada mais seria do que auto-celebração da comunidade. A Liturgia “preexiste”. A comunidade que celebra nela penetra como numa arquitetura preestabelecida, divina e espiritual. Em certa medida, é igualmente determinada pelo lugar de Cristo e de seus santos mistérios na história. … Não somos criadores; somos os servos e guardas dos mistérios. Não somos nem proprietários, nem autores. … A Liturgia do Vaticano II prevê tempo para o silêncio, mas, na prática, quase não se lhe oferece oportunidade. A ausência de silêncio transforma a Liturgia numa sucessão ininterrupta de palavras, que não deixa tempo para a interiorização” (cf. Doc. Cath. 18.5.03).

Resumindo, podemos dizer que a Liturgia nos ultrapassa infinitamente. Ela é um dom de Deus, obra de Cristo. Não nos compete, portanto, apropriar-nos dela, mas deixar-nos possuir por ela. Não nos cabe conduzi-la, mas deixar-nos conduzir por ela. Neste processo de recepção do dom de Deus, o silêncio é de capital importância.

O então Cardeal Ratzinger, hoje, papa Bento XVI, no livro A Fé em Crise? O Cardeal Ratzinger se interroga, manifesta sua preocupação com a banalização da Sagrada Liturgia. Falando na entrevista a V. Messori, sobre Um espaço para o Sagrado, reflete: “A Liturgia não é um show, um espetáculo que necessite de diretores geniais e de atores de talento. A Liturgia não vive de surpresas ‘simpáticas’, de invenções ‘cativantes’, mas de repetições solenes. Não deve exprimir a atualidade e o seu efêmero, mas o mistério do Sagrado. Muitos pensaram e disseram que a liturgia deve ser ‘feita’ por toda a comunidade para ser realmente sua. É um modo de ver que levou a avaliar o seu sucesso em termos de eficácia espetacular, de entretenimento. Desse modo, porém, terminou por dispersar o proprium litúrgico, que não deriva daquilo que nós fazemos, mas do fato de que acontece. Algo que nós todos juntos não podemos, de modo algum, fazer. Na liturgia age uma força, um poder que nem mesmo a Igreja inteira pode atribuir-se: o que nela se manifesta é o absolutamente Outro que, através da comunidade (que não é, portanto, dona, mas serva, mero instrumento), chega até nós”. Continua: “Para o católico, a liturgia é a Pátria comum, é a fonte mesma de sua identidade. Também por isso deve ser ‘predeterminada, ‘imperturbável’, porque através do rito se manifesta a Santidade de Deus. Ao contrário, a revolta contra aquilo que foi chamado ‘a velha rigidez rubricista’, acusada de inibir a ‘criatividade’, arrastou também a liturgia ao vórtice do ‘faça-você-mesmo’, banalizando-a, porque a reduzindo à nossa medíocre medida”. Há, pois, uma outra ordem de problemas sobre os quais Ratzinger quer chamar a atenção: “O Concílio recordou-nos, com razão, que a liturgia significa também actio, ação, e pediu que aos fiéis seja assegurada uma actuosa participatio, uma participação ativa”.

Parece-me uma coisa ótima, digo eu. “Certamente”, confirma ele, “é um conceito sacrossanto que, porém, nas interpretações pós-conciliares, sofreu uma restrição fatal, isto é, surgiu a impressão de que só haveria uma ‘participação ativa’ onde houvesse uma atividade externa, verificável: discursos, palavras, cantos, homilias, leituras, apertos de mão… Mas ficou no esquecimento que o Concílio inclui na actuosa participatio também o silêncio, que permite uma participação realmente profunda, pessoal, possibilitando-nos a escuta interior da Palavra do Senhor. Ora, desse silêncio, em certos ritos, não sobrou nenhum vestígio” (cf. ed. C.P.U, 1985, p. 94-95).

Foi neste sentido que escrevemos um breve artigo sob o título: Liturgia: repouso e não estresse, mostrando que estamos transformando nossas celebrações em platéias de show, de espetáculo, que acabam abafando a dimensão do sagrado, do mistério, levando ao conflito, ao cansaço e não à reconciliação, à harmonia, ao repouso em Deus (Paz e Bem, março-abril 2006).

Santo Agostinho exclama: “Senhor, vós nos fizestes para vós; e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em vós, Senhor”. Repousar em Deus. O povo de Israel é chamado a “entrar no repouso prometido” (cf. Sl 94). Nossas celebrações, em geral, fazem uso demasiado da língua, ou seja, da palavra falada, e do ouvido como receptor do som. Deixam em segundo plano os sentidos da vista e do tato, isto é, da linguagem corporal através das ações, dos gestos, e dos movimentos. É preciso dar mais atenção à contemplação que, por sua vez, exige o silêncio.

4.1. O silêncio na Celebração eucarística

 

Não se trata apenas dos momentos de silêncio, que precedem ou seguem algum rito. O silêncio em si é um rito simbólico e por sua vez, acompanha a maioria dos ritos. Podemos distinguir, portanto, entre: fazer silêncio ou guardar silêncio e ouvir em silêncio, acompanhar em silêncio, acolher em silêncio.

A Instrução Geral sobre o Missal Romano, em sua terceira edição típica, oferece orientações preciosas sobre o sagrado silêncio na celebração.

4.1.1. Fazer silêncio

            Falando da Estrutura, Elementos e Partes da Missa, no Capítulo I, a Instrução Geral apresenta um item sobre o silêncio:

“Oportunamente, como parte da celebração, deve-se observar o silêncio sagrado. A sua natureza depende do momento em que ocorre em cada celebração. Assim, no ato penitencial e após o convite à oração, cada fiel se recolhe; após uma leitura ou a homilia, meditam brevemente o que ouviram; após a comunhão, enfim, louvam e rezam a Deus no íntimo do coração. Convém que já antes da própria celebração se conserve o silêncio na igreja, na sacristia, na secretaria e mesmo nos lugres mais próximos, para que todos se disponham devota e devidamente para realizarem os sagrados mistérios” (n. 45). Importante notar que o silêncio é parte da celebração, portanto, também da participação ativa.

Vamos por partes.

4.1.2. Silêncio antes da celebração

            A igreja, casa de Deus e da comunidade reunida para o encontro com Deus, pede uma atitude de silêncio. Diante do numinoso, do sagrado, do santo, o ser humano se cala, contempla. O que vemos, porém? Ensaios de canto, conversas como se as pessoas estivessem num mercado ou na praça, afinações de instrumentos, correria de cá para lá. Na chegada ao templo, ao lugar do sagrado, somos convidados a nos recolher. Quem sabe, saudar o Cristo presente na Eucaristia, rezar uma Hora do Ofício Divino ou algum salmo. Por isso, se recomenda que “se conserve o silêncio na igreja, na sacristia, na secretaria e mesmo nos lugares mais próximos”. Tudo isso, “para que os fiéis se disponham devota e devidamente para realizarem os sagrados mistérios”. Observemos que não se trata de assistir aos sagrados mistérios, mas de realizá-los, de vivê-los.

Os fiéis não se dirigem à igreja para assistir a um espetáculo. Conseqüentemente, os cantores, os músicos não tocam e cantam para a assembléia, mas com a assembléia. Eles fazem parte da assembléia que celebra, que realiza os mistérios.

4.1.3. Ato penitencial

            Depois de introduzir na celebração com brevíssimas palavras, o sacerdote convida para o ato penitencial, que, é realizado pela assembléia após breve pausa de silêncio. Aqui o silêncio tem o caráter de recolhimento, situando-se diante de Deus como pobre e necessitada de misericórdia.

4.1.4. Convite à oração, na oração do dia ou coleta, como último elemento dos ritos iniciais

            A Instrução Geral diz: “O sacerdote convida o povo a rezar; todos se conservam em silêncio com o sacerdote por alguns instantes, tomando consciência de que estão na presença de Deus e formulando interiormente os seus pedidos… O povo, unindo-se à súplica, faz sua a oração pela aclamação Amém”. Trata-se, não de um silêncio vazio, mas cheio de conteúdo: “tomar consciência de que estão na presença de Deus,… formular interiormente os seus pedidos”. Portanto, não é hora de proclamar intenções da missa nem de dizer a oração com o sacerdote, mas de unir-se em silêncio à súplica, fazendo-a sua pela aclamação Amém.

Existe ainda outra forma de silêncio como resposta orante. Ocorro nas Preces dos fiéis, ou Oração universal, tanto na Missa como na Liturgia das Horas. “O povo, de pé, exprime a sua súplica, seja por uma invocação comum após as intenções proferidas, seja por uma oração em silêncio”. Oração semelhante a essa ocorre também na Sexta-feira Santa, seja nas grandes Preces universais, onde a oração silenciosa é de pedido, seja na hora da adoração da Santa Cruz, onde a oração silenciosa assume o caráter de adoração.

4.1.5. Liturgia da Palavra

A Instrução Geral trata de uma maneira nova do silêncio na Liturgia da Palavra. Enumerando os elementos da Liturgia da Palavra apresenta em primeiro lugar o silêncio: “A Liturgia da Palavra deve ser celebrada de tal modo que favoreça a meditação; por isso deve ser de todo evitada qualquer pressa que impeça o recolhimento. Integram-na também breves momentos de silêncio, de acordo com a assembléia reunida, pelos quais, sob a ação do Espírito Santo, se acolhe no coração a Palavra de Deus e se prepara a resposta pela oração. Convém que tais momentos de silêncio sejam observados, por exemplo, antes de se iniciar a própria Liturgia da Palavra, após a primeira e a segunda leitura, como também após o término da homilia” (n. 56). Trata-se de um silêncio de preparação de acolhida da Palavra de Deus, de meditação e de resposta à Palavra pela oração.

Neste ponto há muito que fazer. Deve haver um entrosamento harmonioso entre o Presidente, o comentarista, os leitores e toda a assembléia. A assembléia deve ser iniciada no rito do silêncio, sobretudo antes de se iniciar a Liturgia da Palavra, para que o silêncio não se torne surpresa, e por isso mesmo, distúrbio. O silêncio não deve criar ansiedade na assembléia, mas paz, quietude. A Instrução Geral sobre a Liturgia das Horas oferece um critério importante para avaliar o tempo do silêncio: “Contudo, evite-se introduzir um silêncio tal que deforme a estrutura do Ofício, ou que ocasione aos participantes mal-estares ou tédio” (n. 202).

O costume de os cabidos catedrais dos cônegos, os monges e religiosos proclamarem a Salmodia em dois coros um voltado para o outro nos ensina uma coisa importante. Os salmos constituem Palavra de Deus em forma de resposta orante do ser humano. Por isso, ela é proclamação e ao mesmo tempo resposta orante. Um lado anuncia, enquanto o outro lado ouve em silêncio. Em seguida, o lado que ouviu anuncia a Palavra e o outro, por sua vez, escuta em silêncio. A melhor maneira de ouvir é escutar em silêncio. Toda a Liturgia possui um caráter dialogal. O diálogo entre Deus e a humanidade se expressa no diálogo da assembléia celebrante, sobretudo entre o sacerdote e os fiéis. Na prática de todos dizerem os textos juntos corre-se o sério risco da rotina e da banalização na recitação do texto dado, deixando muitas vezes de serem verdadeira oração. Importa resgatar o diálogo entre a palavra e o silêncio.

4.1.6. O silêncio antes e depois da Comunhão

            Após o rito da fração do Pão “o sacerdote prepara-se por uma oração em silêncio para receber frutuosamente o Corpo e Sangue de Cristo. Os fiéis fazem o mesmo, rezando em silêncio” (n. 84). Este momento de oração em silêncio praticamente ainda não foi descoberto pelos fiéis, em geral, ocupados com o canto do Cordeiro de Deus que acompanha a fração do Pão. Por isso, se recomenda que quando houver uma ou poucas hóstias para partir, a assembléia cante ou recite o Cordeiro de Deus, uma vez com o tende piedade de nós e a segunda vez, logo, com o dai-nos a paz. Então haverá possibilidade de os fiéis se recolherem em breve oração silenciosa, enquanto o sacerdote também reza uma oração em silêncio.

“Terminada a distribuição da Comunhão, se for oportuno, o sacerdote e os fiéis oram por algum tempo em silêncio” (n. 88). É silêncio de oração do coração, de acolhida, de aconchego, de comunhão, de resposta de louvor e agradecimento e mesmo de adoração do Senhor sacramentalmente presente no âmago do ser de cada fiel.

4.1.7. Silêncio que acompanha textos, ações, gestos ou movimentos

            O silêncio é sinal de acolhida, tanto pela audição como pelo acompanhamento de orações ou de ritos como ações, gestos, posturas e movimentos. Aqui podemos enumerar vários momentos de silêncio dessa natureza durante a Celebração eucarística:

Silêncio que acolhe ouvindo: A assembléia põe-se em silêncio da escuta, particularmente nas leituras bíblicas: “A liturgia da Palavra deve ser celebrada de tal modo que favoreça a meditação” (cf.n. 56). Trata-se de uma leitura meditada e orante da Bíblia, no silêncio interior. As leituras são ouvidas e não lidas em comum do folheto. Por isso, elas devem ser lidas ritualmente do livro e bem proclamadas, de modo que todos na assembléia possam ouvi-las e entendê-las. As leituras têm caráter de memorial dos mistérios celebrados, constituem um rito. As leituras são ouvidas em atitude orante, nas virtudes da fé, da esperança e da caridade, numa atitude de conversão e de adesão à Palavra de Deus. A escuta da Palavra de Deus é uma forma de oração, de comunhão com Deus, pois é Cristo que está presente pela sua palavra, é Ele mesmo que fala quando se lêem as Sagradas Escrituras na igreja (cf. SC 7). Este silêncio orante de escuta e de acolhida deve reinar também durante a homilia, parte integrante da Sagrada Liturgia.

Silêncio que acompanha orações presidenciais e se une a elas: É o silêncio que acompanha orações presidenciais, como as de tipo coleta, a oração do dia, a oração sobre as oferendas, a oração depois da comunhão, a oração conclusiva das Preces. Temos também o embolismo do Pai nosso, bem como a oração pela paz.

A mais importante, porém, é a Oração eucarística proferida pelo sacerdote que o povo acompanha e faz sua. Diz a Instrução Geral: “O sacerdote convida o povo a elevar os corações ao Senhor na oração de ação de graças e o associa à prece que dirige a Deus Pai, por Cristo, no Espírito Santo, em nome de toda a comunidade. O sentido desta oração é que toda a assembléia se una com Cristo na proclamação das maravilhas de Deus e na oblação do sacrifício. A oração eucarística exige que todos a ouçam respeitosamente em silêncio” (n. 78). A Instrução Geral diz ainda: “A Oração eucarística, por sua natureza, exige que somente o sacerdote, em virtude de sua ordenação, a profira. O povo, por sua vez, se associe ao sacerdote na fé e em silêncio e por intervenções previstas no decurso da Oração eucarística, que são as respostas no diálogo do Prefacio, o Santo, a aclamação após a consagração, e a aclamação Amém, após a doxologia final, bem como outras aclamações aprovadas pela Conferência dos Bispos e reconhecidas pela Santa Sé”. (n. 147).

Silêncio que acompanha ritos como ações, gestos, posturas e movimentos: Esta forma de silêncio ocorre em vários momentos da celebração.

  Reunir-se em assembléia celebrante: – Reunir-se em assembléia já é uma celebração do mistério pascal. Convocados pela fé e pela Palavra de Deus, os fiéis se reúnem, se congregam no silêncio da ação, constituindo o Corpo de Cristo. Assim, ao entrar no recinto sagrado da celebração, convém que os fiéis evitem a conversa, a distração, o barulho.

Silêncio que acompanha ações ou gestos: – Pensemos aqui na incensação. O sacerdote coloca o incenso no turíbulo em silêncio e os fiéis acompanham o rito da incensação em silêncio. Trata-se de um silêncio interior, onde a assembléia se comunica com Deus através da vista, do ouvido e do olfato. Temos, depois, ações e gestos como a preparação do cálice, a colocação de um pouco de água no vinho, a apresentação do pão e do vinho ao altar, a purificação das mãos, o sinal da cruz traçada sobre as oferendas do pão e do vinho antes da consagração, a apresentação da hóstia e do cálice após a consagração, as genuflexões após a consagração do pão e do vinho, a elevação da Patena e do Cálice no fim da Oração eucarística, o rito da fração do Pão eucarístico com a imersão de uma partícula da hóstia no cálice e a apresentação do Corpo e do Sangue de Cristo, imediatamente antes da Comunhão. Destaque especial merece a ação de comer a Ceia do Senhor; linguagem do paladar. Trata-se de ações vividas no silêncio. A assembléia reza no silêncio, acompanhando esses gestos e ações. Trata-se de uma participação ativa através do silêncio da palavra, vendo, ouvindo, sentindo o odor e degustando. Para que os sentidos possam falar no silêncio, as palavras se calam.

Silêncio que acompanha movimentos: – As procissões são normalmente acompanhadas pelo canto, mas não necessariamente. Diz a Instrução Geral: “Reunido o povo, enquanto o sacerdote entra com o diácono e os ministros, começa o canto de entrada… Não havendo canto à entrada, a antífona proposta no Missal é recitada pelos fiéis, ou por alguns deles, ou pelo leitor; ou então, pelo próprio sacerdote, que também pode adaptá-la a modo de exortação inicial” (cf. n. 48). No rito da comunhão se diz: “Enquanto o sacerdote recebe o Sacramento, entoa-se o canto da comunhão… Não havendo canto, a antífona proposta no Missal pode ser recitada pelos fiéis, por alguns dentre eles ou pelo leitor, ou então pelo próprio sacerdote, depois de ter comungado, antes de distribuir a Comunhão aos fiéis” (cf.n. 86 e 87).

Quero aqui realçar o momento da apresentação dos dons, ou o rito da preparação da Mesa do Senhor. O canto de preparação das oferendas não é obrigatório. O Missal Romano não apresenta Antífona para o momento da apresentação dos dons, como o faz para a Entrada e a Comunhão. Diz a Instrução Geral: “O canto do ofertório acompanha a procissão das oferendas e se prolonga pelo menos até que os dons tenham sido colocados sobre o altar… O canto pode sempre fazer parte dos ritos das oferendas, mesmo sem a procissão dos dons” (n. 74). Mais adiante, descrevendo o rito de apresentação dos dons, se diz: “Contudo, se não houver canto de preparação das oferendas ou não houver música de fundo do órgão, na apresentação do pão e do vinho, o sacerdote pode proferir em voz alta as fórmulas prescritas, respondendo o povo: Bendito seja Deus para sempre” (cf.n. 142).

O rito da preparação da Mesa do Senhor consta de três momentos ou etapas: a preparação do altar, a procissão dos dons do pão e do vinho com água e a deposição dos dons sobre o altar. Há três modos de os fiéis viverem este rito: acompanhando todo o rito em silêncio; acompanhando os momentos da preparação do altar e a procissão dos dons com um canto; ou cantando durante os três momentos. O que não se deve é sobrepor diversos ritos, como as ofertas dos fiéis e a apresentação dos dons ao altar.

De grande expressão orante é o acompanhar em silêncio a preparação do altar, a procissão dos dons e a apresentação dos dons ao altar ou a deposição dos dons sobre o altar feita pelo sacerdote. No silêncio, seguindo com o olhar, os fiéis que levam os dons realizam um rito significativo para todos os fiéis. Cada fiel se encontra nos seus representantes. Leva ao altar sua vida, seu trabalho, tudo quanto os dons nesta hora significam, na atitude do Corpo de Cristo dado e do Sangue de Cristo derramado. Enquanto isso, recolhem os motivos da ação de graças, representados pelos dons e despertam em si a atitude do sacrifício de ação de graças que se explicitará na Oração eucarística. Nada deveria distrair desse momento de preparação do coração para explodir na grande oração de Ação de graças, a Oração eucarística.

– Silêncio nas ações e posturas corporais:

                        – Estar de pé: Temos, primeiramente, o levantar-se e o estar de pé. Desde os primeiros séculos, a Igreja não costuma rezar de joelho aos domingos e solenidades, nem no tempo pascal. O estar de pé significa o Cristo ressuscitado, e dos cristãos ressuscitados em Cristo, o vencedor, a prontidão na escuta da Palavra do Evangelho, o anúncio do mistério pascal celebrado. Tradicionalmente, a Igreja dá graças de pé, faz as orações presidenciais de pé, a oração em comum de pé. Por isso, é mais significativo fazer o anúncio do Cristo ressuscitado nas aclamações depois da Consagração, de pé. Se há alguma tradição contrária, ela foi introduzida muito mais tarde, em época de decadência da Liturgia.

Estar sentado: No estar sentado temos a postura do corpo, da acolhida, da meditação, da oração do coração. Estando assentados, os fiéis não falam, calam-se, na escuta, na meditação, na oração. Não se trata, portanto, de mero repouso, mas de um silêncio cheio, pleno.

Estar ajoelhado: Trata-se de uma postura de humildade, de reverência, de respeito, de concentração, bem como de adoração.

Inclinações: São outras tantas ações, não propriamente gestos. Podem ser inclinações da cabeça ou do corpo. Às vezes são acompanhadas de palavras, próprias ou do sacerdote. Inclinações da cabeça, ao nome das Três Pessoas da Santíssima Trindade, ao nome de Jesus, de Maria, ou do santo comemorado. Inclinações do corpo ou inclinações profundas. Os fiéis a fazem passando diante do altar, quando não houver no altar ou no âmbito do presbitério, o Santíssimo Sacramento; fazem-na o diácono para pedir a bênção antes de anunciar o Evangelho, fazem-na os ministros antes e depois de incensar, fazem-na todos os fiéis, se permanecerem de pé durante a narração da Instituição da Eucaristia, quando o sacerdote faz genuflexão. O fiel reza, pois, no silêncio das ações, gestos e posturas do corpo. Reza, entra em comunhão com Deus, de corpo inteiro.

Genuflectir: A genuflexão também é feita em silêncio, ou seja, sem nada dizer. Tem sentido diverso do estar ajoelhado. É sinal de adoração.

– Prostrar-se: – Trata-se de um dos ritos mais significativos da Sagrada Liturgia. A prostração realiza-se em momentos solenes de forte experiência do sagrado. No rito de abertura da Celebração da Palavra Comemoração da Paixão e Morte do Senhor na Sexta-feira Santa, o sacerdote prostra-se em silêncio diante do altar. O povo reza, acompanhando em silêncio.

Depois, temos a prostração na Profissão perpétua dos religiosos e das religiosas e na Consagração das virgens. O professando sente sua pequenez diante da vocação a que é chamado, diante da tarefa a ser cumprida. Sente o seu nada diante do Sagrado, diante de Deus, a quem será consagrado.

De intensa significação é a prostração dos eleitos para o serviço do Reino nas ordenações de Diácono, de Presbítero e de Bispo. Gesto e postura de quem se sente necessitado de purificação, de quem sente necessidade do auxílio e da proteção da comunidade, dos anjos e dos santos, sobretudo do Deus santo diante da tarefa a que é chamado. Quem é associado à missão messiânica de Cristo deve ter feito uma forte experiência da própria pequenez, de sua condição de pecador, necessitado de purificação. Embora, envolto pela Ladainha dos Santos e as invocações de Preces, o silêncio o envolve, deixa-se tocar por Deus que o purifica e o sustenta pela intercessão de todos os fiéis, dos anjos e dos santos.

4.2. O silêncio na celebração de Sacramentos e outras celebrações

Na Crisma, antes de o bispo fazer a imposição das mãos com a oração invocativa do Espírito Santo, pede que os fiéis rezem por alguns momentos em silêncio.

Na Unção dos Enfermos, o sacerdote, antes da unção, impõe as mãos em silêncio sobre a cabeça do enfermo. Todos os presentes acompanham o gesto rezando em silêncio.

Nas Ordenações ocorre um silêncio muito significativo. Na Liturgia sacramental da ordenação de um Bispo, antes da oração de ordenação, o bispo ordenante principal e os co-ordenantes, bem como todos os bispos presentes, impõem as mãos sobre a cabeça do eleito, sem nada dizer. O mesmo faze o Bispo e os presbíteros presentes na ordenação de um Presbítero, e o Bispo, na ordenação de um diácono. É claro que todos os fiéis se unem a este silêncio orante de invocação do Espírito Santo. Aqui vale particularmente a recomendação de se deixar o rito falar.

Também na celebração do Batismo e da Penitência se prevêem momentos de silêncio.

O sacerdote convida também à oração silenciosa na Profissão religiosa e no Rito das Exéquias. O silêncio é recomendado no Rito de Comunhão fora da Missa e no Culto eucarístico fora da Celebração eucarística. Nas exposições breves ou longas haja lugar para o silêncio.

Os momentos de silêncio são recomendados também na Liturgia das Horas, após as leituras longas ou breves, após a homilia e, sobretudo, após os salmos.

Conforme o momento ou as circunstâncias, o silêncio possui uma natureza diferente. Podemos, pois, distinguir várias formas de oração silenciosa, vários significados do silêncio: silêncio de recolhimento; silêncio de acolhida e de assimilação; silêncio de meditação; silêncio de comunhão, de adoração e louvor; silêncio de contemplação de textos e ritos, fazendo seus os ritos realizados e os textos ouvidos.

Deve-se cuidar que o silêncio seja realmente parte da Liturgia, linguagem, comunicação do mistério ou com o mistério, e não um silêncio vazio, inerte, morto. Deve-se observar, pois, uma dinâmica que conduza ao silêncio sagrado e dele se faça passar a assembléia harmoniosamente para o momento ou o rito seguinte. Trata-se, certamente, de uma arte. Devem ser evitados os silêncios de surpresa, não previstos nem preparados. Vale aqui a recomendação da Instrução Geral sobre a Liturgia das Horas: “Contudo, evite-se introduzir um silêncio tal que deforme a estrutura do Ofício, ou que ocasione aos participantes mal-estares ou tédio” (cf.n. 202).

Por outro lado, devemos distinguir entre o silêncio de inércia das assembléias individualistas e informais, que se precisa fazer desaparecer e o silêncio comunitário, alimentado, pela palavra, pelo canto e pela catequese. Pela intensidade com que o silêncio sagrado é vivido na Liturgia, pode-se avaliar o grau de capacidade e de preparação dos fiéis na verdadeira participação.

Também na Liturgia vale o que diz o Eclesiastes: “Há tempo para cada coisa debaixo do céu… tempo de calar e tempo de falar” (Cf. Ecl 3,1.7). Importa, porém, que em todas as formas da expressão litúrgica entremos em comunhão com Deus, deixando-nos santificar e glorificando-o por Cristo, com Cristo em Cristo. A Ele o louvor e a glória por toda a eternidade!

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