A Imaculada Conceição

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A veneração à Imaculada Conceição da Mãe de Deus sempre foi um dos traços mais marcantes da espiritualidade franciscana. São Francisco foi, sem dúvida, quem melhor absorveu e processou a piedade mariana medieval.  Iniciou, de modo espontâneo e natural, uma mariologia cavalheiresca, sustentada pelo princípio da generosidade do amor de Deus  que, nos privilégios concedidos à Virgem, à serviço da encarnação redentora do Cristo,  demonstrou Sua paixão materna e fraternal por toda a humanidade. Para o cavaleiro é preciso glorificar sua dama, conferir-lhe as virtudes mais eminentes. Sabemos que se destacam entres os escritos de Francisco a Saudação à Mãe de Deus e o Elogio das virtudes. Como nos afirma Frei Vitório Mazzuco, “nestas duas preces-poesias, Francisco rende uma homenagem e louvor à Virgem Maria, e junto com seus frades elevou e promoveu este modo de culto popular da Mãe de Deus.”

De fato, a exaltação de Maria precedeu à reflexão sobre ela, pois antes de ser objeto de estudo, Nossa Senhora foi objeto de veneração e amor. Os Franciscanos, enamorados pela Virgem, sempre lhe devotaram um amor que não conhece limites, como confessava, no século XIII, o renomado Frei Guilherme de Ware, mestre do beato Duns Scotus, grande defensor da Imaculada: “Se tiver que falhar, prefiro que seja por superabundância, conferindo a Maria qualquer prerrogativa; do que falhar por defeito, diminuindo ou subtraindo dela qualquer prerrogativa que teve.” Em verdade, São Francisco legou aos seus filhos espirituais a honra de serem os paladinos dos privilégios da Mãe de Cristo, dentre os quais está o mistério de sua Imaculada Conceição.

Os padres da igreja sempre viram em Maria Imaculada uma figura da própria Igreja Imaculada, bem como da promessa divina da santificação de cada um de nós por meio de Jesus Cristo. No entanto, concediam apenas uma “purificação” da Virgem no seio materno de Sant’Anna, logo após sua concepção; uma vez que criam que esta purificação ainda teria acontecido dentro do pecado. O debate entre os teólogos atravessou os séculos, tendo opositores e defensores da doutrina da Imaculada Conceição. Coube ao beato frei João Duns Scotus (1266-1308), o Doutor sutil, com sua idéia de “redenção preventiva” ou “pré-redenção” na concepção de Maria, enriquecer com sua contribuição teológica, aquilo que o Povo de Deus já acreditava espontaneamente sobre a Beatíssima Virgem, e manifestava nos atos de piedade e nas expressões gerais da vida cristã. Aqui estamos nos referindo ao chamado Senso dos Fiéis, fundamento que viria ser a fonte principal para a proclamação do dogma da Imaculada e que preconiza: “quando o Povo de Deus acredita em alguma coisa em muitos lugares, por muito tempo e através de muita gente, ele não se engana.” Portanto, nestes casos, o Povo de Deus precede os teólogos, e tudo isso graças a essa capacidade infundida pelo Espírito Santo, que o capacita para abraçar a realidade da fé com a humildade. Desta forma, o Povo de Deus faz–se magistério no crer, que deve ser depois ser aprofundado e acolhido intelectualmente pela teologia da Igreja, a quem cabe ensinar.

Segundo a tradição, a Festa da Imaculada Conceição de Maria já era celebrada no Oriente no séc. VIII, um século antes das primeiras festividades registradas no Ocidente. Os franciscanos, fiéis à sua tradição imaculista, defendiam a proclamação do dogma. Pelo menos 300 anos antes da declaração desta verdade de fé, os frades menores, por ocasião de sua profissão na Ordem, faziam o chamado “voto de sangue”, juramento com o qual prometiam defender, até com o martírio, o mistério da Imaculada Conceição de Maria. Foi assim com o jovem Frei Antônio de Sant’Anna Galvão, que no dia 16 de abril de 1761, no antigo Convento São Boaventura, em Macuco/RJ, com a mão direita sobre a bíblia declarou: “Prometo e juro por estes santos Evangelhos defender, até dar a própria vida, a conclusão em que confessamos que a Virgem Maria Nossa Senhora foi concebida sem pecado original e dele preservada pelos merecimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo, seu Santíssimo Filho”.

Sendo assim, depois de um longo caminho de piedade mariana imaculista e de reflexão teológica, Pio IX, no dia 08 de dezembro de 1854, definiu como dogma de fé a Imaculada Conceição da Virgem e Mãe de Deus, Maria Santíssima, nos seguintes termos: “declaramos, proclamamos e definimos que a doutrina que sustenta que a beatíssima Virgem Maria foi preservada imune de toda mancha da culpa original no primeiro instante da sua conceição por singular graça e privilégio de Deus onipotente, em atenção aos méritos de Cristo Jesus Salvador do gênero humano, está revelada por Deus e deve ser, portanto, firme e constantemente acreditada por todos os fiéis” (Bula Ineffabilis Deus).

Os dogmas marianos nos revelam como o próprio Deus vê Maria: são privilégios, graças muito especiais que ela recebeu de Deus. Obviamente, eles falam também de Cristo, pois a Virgem recebeu essas graças em função de seu Filho. Assim, a verdade sobre Maria serve de “muro de proteção” para as verdades referentes a Cristo e, por conseguinte, à nossa Salvação.

Acreditamos que as festas marianas indicam aspectos da existência humana que devolvem, para cada um de nós, traços da Redenção humana em toda sua riqueza. A Solenidade da Imaculada Conceição, especialmente, nos permite celebrar nosso próprio mistério de que não estamos envolvidos somente na culpa, mas também livre e purificados dela, junto com Maria, através de Jesus. Para o Papa Francisco: “Esta festa litúrgica indica o modo de agir de Deus desde os primórdios da nossa história. Depois do pecado de Adão e Eva, Deus não quis deixar a humanidade sozinha e à mercê do mal. Por isso, pensou e quis Maria santa e imaculada no amor (cf. Ef 1, 4), para que Se tornasse a Mãe do Redentor do homem. Perante a gravidade do pecado, Deus responde com a plenitude do perdão”.

Concluímos certos de que, contemplando o mistério da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria, reafirmamos nosso desejo de, como fiéis penitentes, sermos puros de coração.

Texto: Thiago Damato, JUFRA – Formando do 2º ano na OFS

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

Introdução à Mariologia. Frei Clodovis Maria Boff(OSM) Ed. Vozes
Dogmas Marianos: síntese catequético-pastoral. Frei Clodovis Maria Boff(OSM). Ed. Ave-Maria
Vida de Frei Galvão. Frei Carmelo Surian(OFM). Ed. Santuário
Francisco de Assis – E o modelo de amor cortês-cavaleiresco. Frei Vitório Mazzuco(OFM) Ed. Vozes.
Festas de Maria: Guias para a vida. Monge Anselmo Grun(OSB) e Petra Reitz. Ed. Santuário
WWW.VATICAN.VA

 

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